O mês tem só vinte e oito dias com o carnaval no meio, e passou feito um suspiro. Mas ah, que suspiro!
Se a minha vida fosse série, esse fevereiro ia ser season finale.
Ganhei até alta da terapia. Aparentemente, viajar no carnaval só com uma amiga ("Mas vocês vieram só vocês?", perguntavam o tempo inteiro; e diziamos sim e sorriamos amarelo enquanto pensavamos que nunca ninguém perguntaria isso pra dois caras, ê mundo machista!), ficar em camping ("Mas foi de boa?" Gente, foi de ótima! Eu sou moleca da praia; em Ajuruteua a água sai marrom do chuveiro. No camping tinha até um chuveiro de água quente! E daí que tinha fila pro banheiro? Eu não tenho problema com barro nos pés, mando muito bem em não atolar carro e minha barraca de menos de R$50 comprada no Wall Mart e cuja parte de cima eu esqueci e por isso improvisamos com um guarda-chuva quebrado sobreviveu super bem e só deixou molhar os edredons no último dia de chuva, apesar de ao desmontar a barraca termos descoberto que o colchão inflável fazia as vezes de bóia), beijar uma cidade inteira (São Luiz do Paraitinga, sua linda! Foi tanta risada e tanta saliva que algum dia eu paro para escrever um texto só sobre os rapazes - e a moça, por que não uma moça? - com quem trombei lá. Critério? Beijo quem dá vontade, só não beijo babacas - "O que é uma mulher sozinha, precisa de um homem por perto..." Cara, não, não preciso), pegar sol e chuva e secar a roupa no corpo, andar com cachaça em garrafa plástica ("Moça, você tá com gosto de pinga", "É pra matar os micróbios"; brincar na academia da praça parecia uma ideia tão boa antes de cair no chão), se fantasiar todos os dias (enquanto no espelho do banheiro as outras moças faziam chapinha e colocavam florzinha no cabelo, eu e minha amiga pintávamos a cara de tinta. Saí de mágica com cartola e tudo; de moça do baralho com cartola de naipes; de mímica com a cara branca; de noiva cadáver com um véu preto, "sangue" no pescoço e "love kills" escrito de batom no corpo; de Frida Kahlo com a franja - que é o cabelo que me resta - trançada, flor na cabeça e monosselha) e adorar tudo mostram que eu sou uma pessoa super bem resolvida comigo mesma. E agora acredito que de fato sou, e que a amigdalite e o nariz descascando de queimado de sol que trouxe de recordação valeu super a pena. Que eu sou mesmo meio maluca e livre para fazer o que der na telha. Que a vida deve ser sempre alegre - não no sentido auto-destrutivo da coisa, mas justamente no sentido de não sofrer a toa, de não se privar de alegria. As melhores coisas que a gente faz na vida - e agora falo até de coisas sérias, de coisas que melhoram o mundo, de trabalho - a gente faz porque gosta, porque nos faz bem. Eu não tenho religião, mas acho que a gente veio ao mundo pra aprender e pra ser feliz. E ser feliz é também uma questão de como se encara o mundo.
Depois do carnaval, consertar meu computador bugado com todo meu trabalho lá dentro foi tranquilo. Depois do carnaval, fui sozinha ao churrasco de turma onde até amiga noiva eu tenho e descobri que a namorada de um rapaz que já amei mais que tudo é linda feito uma modelo de revista, e nada disso me fez mal. Não tenho mais medo de morrer só. Depois do carnaval, me sinto inteira feito eu mesma, toda vestida de mim.
E ao fim disso -ah, destino! - começo a sentir novamente borboletas no estômago. E estou leve feito borboleta.
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